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Mar 10

 "Tudo isto são coisas, coisas que nós podemos amar. Mas não posso amar palavras. É por isso que não aprecio as doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm arestas, não têm cheiro, nada têm senão palavras"

Hermann Hesse, "Siddhartha, um poema indiano"

 

Embora não tivesse publicado de imediato a minha história sobre "coisas" e "palavras", devo dizer que pensei muito no assunto - Então como conseguirei passar um dia assim, despojada de tudo e mais alguma coisa?

Mas mesmo antes de começar, decidi que talvez nem fosse assim tão mau perguntar a umas quantas pessoas o que achavam sobre isto. Umas aceitaram a pergunta, outras não (a resposta era quase sempre a mesma: "são mesmo assuntos para ti...") mas mesmo assim ainda tive alguns resultados:

"Coisa é algo que tem características. Por exemplo, um telemóvel é uma coisa, tem as suas características próprias que o definem. "Coisa" não é algo concreto porque não existe UMA coisa !

Palavra? Oh, uma palavra é algo que utilizamos para criar frases, para podermos comunicar... As palavras são algo essencial para o ser humano, porque ele precisa de comunicar."

Vem me a parecer que afinal não estava tão enganada quanto isso.

Foi um dia diferente, esse de viver no mundo à parte. De início, o silêncio é reconfortante e o desafio parece não ser nada de complicado. Estamos sozinhos, longe das pessoas, afinal não há nada de diferente na manhã ... Acordamos assim todos os dias. Fazemos o caminho de todos os dias: Não há nada. Não há pessoas, não há o vizinho do quinto esquerdo nem as flores da loja ao pé da padaria. O café a nada sabe e os carros não têm ocupantes. Não há jornais nem folhas no chão ... Não há cor, não há luz. Nada há para além do nada.

Se nada existe, significará então que TUDO são coisas. E se tudo o que temos (gente incluida) desapareceu nesta ginástica mental de ausentar "coisas", será que nós próprios existiremos neste mundo de coisa nenhuma ?

Assustei-me, e nem cinco minutos aguentei nesta ausência de sentidos. 

Segui o meu caminho e continuei o meu dia (felizmente levantei-me mais tarde que o costume). Agora, tendo todas as "coisas" de volta, recuperando os meus sentidos, experimentei, a medo, viver sem palavras: Não ouço, não falo, não escrevo.

Levanto o braço e digo olá à senhora da mercearia que passa, ela acenou-me de volta. Ao almoço, sorrio enquanto como uma boa pratada de massa, a minha avó entendeu e correu à cozinha para me buscar mais um prato. Sigo caminho, vejo-o, sorrio-lhe, abraço-o, e ele entendeu que quero passar o resto da minha vida ao lado dele.

Mantenho a surdo-mudez propositada. Não me sinto mal.

Eles usam palavras, eu estou num mundo a parte. Faço-lhes gestos, eles entendem.

Não preciso de palavras,"não têm cores, não têm cheiro, não têm gosto, nada têm senão palavras" !

 

Assumo então que, depois desta aventura, sou totalmente dependente das MINHAS "coisas". Mas palavras .. não são absolutamente necessárias.

Um dia, se calhar, escrevo um blog só com gestos. 

publicado por mafaa às 16:03
música: Extravagante - Jorge Cruz

comentários:
Bem.. como tu insististe para eu comentar, cá vai... (vamos la ver o que sai daqui, está bem?)

Gosto mesmo muito do que escreves e da maneira que pensas... a serio.
Descreves tudo e exprimes-te muito bem :)

Gostei particularmente desta segunda parte. É verdade, muitos de nós tomam o sentidos com garantia, mas poucos aguentam estar sem um deles por curtos instantes... (tu sabes ao que me refiro, ou assim espero)

As palavras sim, sao necessárias, mas por vezes não são necessárias para que todos percebam o que nos vai cá dentro, acho eu.
Sinceramente, nao sei nada. Se são importantes as palavras? são. As coisas? Também. Porquê? Porque.... oh pa...nao sei bem... mas sem tudo isto, nao era capaz de viver "neste mundo"

E agora, vou me embora, porque nao me consigo exprimir tao bem como tu :)

Beijinho
Pipa a 11 de Março de 2010 às 22:08

La vou eu meter barulho ^^

Com que então as palavras são algo de insípido e frio. Pois bem, admito.
Mas no entanto não há palavras sozinhas e apenas as palavras sozinhas são insípida, para utilizar esse termo.

Tal como as pessoas que sozinhas não conseguem nada, as palavras como que "trabalham" juntas para formar algo que pode tomar qualquer forma, qualquer cheiro, qualquer sabor, qualquer cor, qualquer sensação. Um bom exemplo disso são os livros - quando lemos um livro deixamo-nos levar por ele entramos no seu pseudomundo de figuras imaginárias, vertemos nele a nossa mente e os nossos sentido.

E essa experiência fantástica é constituída por simples insípidas cinzentas e irritantes palavras, que no seu conjunto ganham vida, ganham personalidade.

No entanto embora possam ser assim, nem sempre as palavras são necessárias, e estou a falar de palavras escritas e faladas. Mas pensando bem, não serão os gestos e atitudes palavras ?
Palavras mais simples talvez, palavras sem forma definida, palavras com várias significados, mas mesmo assim, palavras. Uma pessoa a quem se comunique por gestos tem de saber o que o gesto significa, tal como sabe o que significa uma palavra escrita de uma língua.

Bem, agora saio que me acabou a inspiração filosófica e ainda tenho de estudar um bocado :D



Um abraço, Ricardo de Sá "Typhon" Bessa



P.S.- Sei que me vais arrancar o cabelo por isto ^^
TyphonRagewind a 15 de Março de 2010 às 20:30

Minha querida amiga Pipaa ~, como é bom ter-te por aqui :D
Pois é, tomamos os sentidos por algo tão certo que nos habituamos demasiado a eles. E por nos habituramos demasiado, esquecemo-nos do quão valiosos são, reconhecendo apenas o seu valor quando perdemos uma parte deles ..
E quando falo de sentidos, refiro-me também a coisas e a pessoas .. Somos tão dependentes disso tudo !

Enfim, obrigada por teres aparecido :')
Abraço amigo,
mafaa
mafaa a 16 de Março de 2010 às 22:45

The art of Seeing é parte dos blogs de interesse de misspiafashion.blogs.sapo.pt. Obrigada pelo reconhecimento :D
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